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Entre o cuidado e o rótulo: como olhar para o sofrimento sem reduzir a pessoa ao diagnóstico.


__ Ana chegou dizendo:“Doutora, eu acho que eu sou depressiva.”

Ela não falou “estou triste”.Não falou “estou cansada”.Não falou “minha vida está difícil”.

Ela já chegou com um nome pronto.

Quando perguntei o que estava acontecendo, vieram camadas: separação recente, noites mal dormidas, excesso de responsabilidades, culpa por não dar conta de tudo. A tristeza era real. O sofrimento também. Mas a história era maior que o rótulo.

Essa cena tem se repetido com frequência nos consultórios. Cada vez mais, as pessoas chegam com um diagnóstico já incorporado à identidade. E aqui nasce uma pergunta delicada: como cuidar sem reduzir?

O diagnóstico é mapa, não identidade

Manuais como o DSM-5 e a CID-11 foram construídos para organizar padrões de sintomas com base em pesquisa científica. Eles ajudam profissionais a reconhecer quando há persistência, intensidade e prejuízo funcional suficientes para caracterizar um transtorno.

Isso é importante. Nomear pode orientar tratamento, favorecer acesso a cuidado e diminuir culpa.

Mas mapa não é território.O diagnóstico descreve um conjunto de critérios — não define a pessoa inteira.


A ciência diferencia emoções esperadas da vida — luto, frustração, medo, tristeza diante de perdas — de quadros clínicos persistentes e incapacitantes. A presença de sofrimento, por si só, não significa psicopatologia.

Pesquisas mostram que sintomas emocionais existem em um continuum. Modelos dimensionais, como a Taxonomia Hierárquica da Psicopatologia, sugerem que o sofrimento não funciona apenas como “tem ou não tem transtorno”, mas como graus de intensidade em espectros mais amplos.

Isso nos lembra algo simples e profundo: sentir é humano. O que diferencia experiência comum de transtorno é duração, intensidade, impacto na vida e contexto.

Quando o rótulo vira identidade

Voltemos à Ana.

Ao longo das sessões, ela começou a dizer:“Eu estou passando por um momento difícil.”

Percebe a diferença?

Há uma passagem sutil do “eu sou” para o “eu estou”.O sofrimento deixa de ser identidade fixa e passa a ser estado, processo, travessia.

Estudos na psicologia clínica mostram que quando a identidade se funde completamente ao diagnóstico, aumenta o risco de estigmatização interna e sensação de incapacidade permanente. Separar pessoa e quadro clínico favorece esperança e engajamento terapêutico.

Um cuidado que amplia

Evitar patologizar não significa negar transtornos reais.E reconhecer transtornos não significa transformar toda emoção em doença.

É um equilíbrio delicado.

Cuidar é sustentar essa tensão:• Validar a dor.• Investigar critérios clínicos com responsabilidade.• Considerar contexto social, relacional e histórico.• E, sobretudo, enxergar a pessoa para além da nomenclatura.

O diagnóstico pode orientar o caminho.Mas quem caminha é alguém com história, vínculos, valores e possibilidades.

No fim do processo, Ana não deixou de sentir tristeza quando a vida apertava. Mas ela aprendeu a não confundir estado emocional com identidade permanente.

Talvez esse seja um dos convites da prática clínica hoje:olhar para o sofrimento com rigor científico —sem perder a humanidade que existe antes e depois de qualquer manual.



 
 

©2026- Karina Melo

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